quarta-feira, 28 de novembro de 2012

‎"será que ninguem se importa " *





« 'ninguém se importa' pensaste. e continaste a sorrir até chegar a noite, á muito que esperavas por isto, mas era preciso tanta coragem. pegaste qualquer coisa, qualquer coisa que perfura-se a pele e chegasse á veia, para ser rápido, sem dor, nunca foste forte o suficiente para aguentar qualquer dor. então, pegaste, mas antes disso tinhas algo a fazer.. pegaste uma folha e uma caneta, sentaste-te na cama e escreveste: 'queridos pais, eu não quero que sofram, aliás, eu acho que só trago sofrimento, e vocês discutem tanto, e não vale a pena negar mais.. eu sei que a culpa é minha. não quero que pensem que não vos amo, eu amo-vos demais, mas é o melhor.. para todos. queridos "amigos", eu esperei que percebessem como doia, mas ninguém deu por nada, espero que não se lembrem mais de mim.. visto que até agora não lembraram. mas gostei de vos conhecer, a alguns.. eu sei que vos magoei, que fui um erro, que errei demais, que falhei, que menti, traí, e ainda me fiz de forte, eu sei que agora, e já desde á muito.. não faço nada aqui. nc ninguém notou, nc ninguém se importou.' "tenho que parar de escrever" suspiraste, o papel já estava borrado das lágrimas, não havia volta a dar, ou agora ou nunca, o que á muito esperaste por fazer, agora ganhaste coragem, por segundos, num respirar, ganhaste a coragem que á muito esperavas.. pegaste aquele pequeno objecto cortante, e perfuraste a pele, bem fundo, a dor era minima, nada que já não estivesses habituada. o corpo frio ficou inconfundivel com o chão frio do quarto. perdeste os sentidos. acabou. de madrugada, a tua mãe chamou-te, para o pequeno-almoço, como em todos os outros dias, mas desta vez, sem resposta.. ficou á espera, até que decidiu abrir a porta do quarto. gritos. gritos que fazem o teu pai correr até ao quarto também. exacto. a tua mãe grita o teu nome como se fosses acordar, e o teu pai paraliza, agarra a mão da tua mãe e com a outra mão chama a ambulancia. ninguém se importa não é mesmo? na escola, todos sentem a tua falta, até alguém entrar na sala, e anuciar a tua morte, todos ficam em choque, algumas lágrimas.. e o rapaz que gostavas? bem, ele chorou, e saiu da sala, ele nunca demonstrou os seus sentimentos, então porquê chorar em frente de tanta gente? a rapariga que gozou contigo? aquela que todos queriam? chorou, culpou-se por tudo. ninguém se importa não é mesmo? mais um dia passou, a tua mãe teve que ligar para a tua familia, e anuciar a pior das noticias.. o teu suicidio. choro, lágrimas, pânico, culpa. e ninguém se importa, certo?mais um dia.. é o teu velório. estava lá toda a gente, até aquele rapaz, ele levou o ramo de flores que há tanto esperavas, e falou aquilo que tanto querias ouvir.. 'amo-te'. a tua melhor amiga, aquela com quem te chateaste á uns meses? ela também lá estava, andou aqueles km todos, e sentiu culpa, ela não conseguiu estar contigo, pelo menos na cabeça dela.. e chorou, imenso. o teu melhor amigo não conseguiu ir, não foi, não deu, aquele que nunca teve tempo para ti, hoje, no teu velório, também não lá estava.. mas porque ele nunca se imaginou sem ti, dói demais.. palavras dele. e na tua cabeça, ninguém se importa, não é?passaram dois anos. a tua mãe não limpou o sangue do teu quarto, e junto com isso, ainda está lá tudo, o computador aberto, o telemovel ligado, a cama desfeita que ela tanto embirrou para fazeres, tudo. ela não dorme só de pensar que no dia a seguir não te irá levantar para ires para a escola. o teu pai saiu de casa e ainda não voltou, desde á dois anos. a tua melhor amiga liga todos os dias, para saber se está tudo bem, mesmo sabendo que não está, ela sente a tua falta. o teu melhor amigo começou a cortar-se, e ele que achava isso ridiculo, como ele tinha dito.. 'dói demais'. o rapaz que gostavas mudou de cidade, ainda não arranjou namorada e ele que era tão mulherengo, não é? acho que ele ainda te quer, ainda te espera. a rapariga que gozava contigo, hoje é gozada, e culpa-se. o teu lugar na sala de aula, ainda lá está, ninguém ocupou. a tua familia perdeu o contacto, ninguém liga, ninguém dá sinais, faltas tu. a cidade inteira parou, desde á dois anos, mas as rotinas continuam iguais, ninguém fala, ninguém comenta, ninguém diz nada, apenas sentem, fazes falta, todos sentem. e como vês, ninguém se importa, certo? »

2 comentários:

  1. Uau, que tenso!
    Foste tu que escreveste isto?

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  2. Estas palavras tocam bem fundo no coração! E a verdade é que existe sempre alguém que se importa, mesmo que não mostre. Não podemos desistir...nunca!

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